I
A relação entre a literatura e a psicanálise é de longa data. O próprio Freud era um leitor ávido, e não foram poucas as vezes em que esse interesse surgiu nas suas discussões teóricas. Ele discorre sobre o ato da escrita no seu ensaio sobre escritores criativos; Shakespeare é uma referência frequente para ele; e outros escritores, como Goethe e Dostoiévski, não são ignorados. Depois de Freud, o interesse pela literatura não diminuiu. Ela continua sendo frequente objeto dos psicanalistas, que encontram amiúde renovadas maravilhas com as quais se deleitar.
A relação não é unilateral. Embora um tanto arrefecido no momento atual, o interesse de escritores pela psicanálise já teve proporções enormes. Muitos romancistas do século passado tiveram suas obras influenciadas pela teoria psicanalítica. Autores como Saul Bellow, Thomas Mann, Frank O’Connor demonstravam claro interesse pela teoria psicanalítica, muitas vezes fazendo referência a ela ou permitindo (conscientemente ou não) que seus trabalhos fossem influenciados por aquela teoria. De maneira similar, a crítica literária da primeira metade do século passado passou por um período de influência da psicanálise freudiana. Escolas de crítica dedicadas somente a esse tipo de análise foram criadas, e se os seus trabalhos não deram os melhores resultados, ainda assim houve uma influência geral da psicanálise na crítica literária da época, em parte por uma aproximação, em parte pela tentativa de distanciamento, que de todo modo exigia diálogo com os pensamentos freudianos.
Parece haver qualquer coisa que prediz uma relação entre esses campos. Da parte psicanalítica, pelo menos, o interesse tem sido contínuo, e se a literatura não demonstra o mesmo ardor que já teve, podemos aceitar isso como momento da relação. Como dois irmãos de idades diferentes, o caçula admira e olha sempre para o mais velho para medir seus passos, enquanto este, talvez um pouco enciumado com a atenção recebida pela criança nova, mostra-se independente e pouco olha para o irmão. A relativa novidade da psicanálise logicamente faz com que a relação entre os dois campos date de poucas décadas; mas disso não se conclui que somente o que é novo ou contemporâneo figure nesse diálogo. Freud provavelmente voltou-se com mais frequência para autores anteriores ao seu tempo do que para seus contemporâneos. O retorno ao passado, como diria um bom psicanalista.
Mas se os psicanalistas demonstram um constantemente renovado interesse pela literatura, o mesmo não acontece com relação à crítica literária. Poucas são as tentativas dos psicanalistas críticos de dialogar com outras teorias críticas. Enquanto voltamo-nos amiúde para textos da Antiguidade, como o Édipo de Sófocles, ignoramos toda a história da crítica literária; esquecemos a estreita relação entre o campo crítico e a literatura. O psicanalista crítico, impávido, interpreta textos com olhos que só enxergam a teoria que está à sua frente, ignorando que é antes o campo da crítica que tem preeminência na compreensão de um texto, sendo a psicanálise apenas mais uma teoria de compreensão dentre várias.
Isso não exclui, é claro, o valor da psicanálise para exegese de um texto literário; apenas pede que ela esteja disposta a discutir com outras teorias do campo crítico, e mesmo que se permita influenciar por elas. Embora tenha havido certa discussão no século passado, isso pouco afetou a psicanálise, com maior efeito mais sobre a crítica literária; ainda mais, a discussão, do lado psicanalítico, limitou-se às teorias e conceito críticos em voga naquele próprio século. Diferente de sua relação com a literatura, não houve um retorno à frutífera crítica de séculos passados. Dr. Johnson revira-se em seu túmulo.
II
Um dos mais célebres conceitos da crítica literária é o da suspensão da descrença (“suspension of disbelief”), de Coleridge. Um grande poeta ele mesmo, Coleridge reconheceu que uma parte essencial da experiência estética literária jaz na capacidade de conter seus julgamentos sobre os aspectos mais incríveis de uma obra e tomar temporariamente como verdadeira a realidade do trabalho. Reconhecemos (com relutante decepção) que elfos e Hobbits não existem, mas se estamos lendo Tolkien, é necessário aceitar a sua existência como uma premissa do seu mundo literário e temporariamente suspender nosso insidioso realismo. A fantasia não é o melhor exemplo, porque para ingressar na apreciação literária desse tipo de texto, torna-se necessário aceitar a premissa do mundo. A dificuldade pode surgir em casos nos quais uma obra de caráter mais realista desafia nossa percepção das coisas.
Lemos Eugénie Grandet, de Balzac. Deparamo-nos com a figura de Félix Grandet, seu pai, um homem que, como outros personagens balzaquianos, é tomado por forte paixão; neste caso, a avareza. Ele amealha uma grande fortuna e, mesmo imensamente rico, não abandona seus modos de avarento, mantendo a si e a sua família numa vida quase miserável. Muitos aspectos desse livro podem nos fazer duvidar e exprimir, como assistindo a um filme de ação excessivamente melodramático: “que mentira!”. A paixão do pai de Eugénie é improvável, o tamanho da fortuna que ele adquire é contestável. Mas isso não importa, ou pelo menos não deve importar enquanto lemos o romance. É preciso suspender o julgamento e aceitar as premissas desse mundo, acreditando que elas têm alguma razão de existir. No caso de Balzac, elas têm.
Não desconsideramos o implausível; aceitamos a sua implausibilidade por um motivo de força maior. É um ato de confiança. Dispensamos a racionalidade banal e aceitamos a lógica poética. Somente aceitando as premissas internas da obra literária podemos apreciá-la como lhe é devido.
Uma tentativa de aplicar esse conceito para o campo clínico psicanalítico parece ser frutífera. No processo de análise, não raro nos deparamos com relatos cuja autenticidade no plano real é duvidosa, que nos fazem franzir a testa por mostrarem contradição com acontecimentos passados ou cuja maneira de contar nos faz entender que o paciente pode estar falseando informações. Dizer que um analista não deve julgar o paciente por essas inverdades, sejam voluntárias ou não, é lugar-comum no meio psicoterapêutico; o que nos interessa é a atitude do analista a respeito delas.
A escuta analítica exige a suspensão da descrença; é preciso se engajar emocionalmente, não ignorando a nossa capacidade crítica, mas também não a utilizando para depreciar o relato. Se alguém diz que escalou o monte Everest em uma hora, a atitude do analista não será de indignação, mas antes de curiosidade. É preciso perguntar-se “por que as coisas estão dispostas dessa maneira?”
Se no texto, falamos de consistências internas da obra; na clínica, falamos de consistência do inconsciente. Não existe irracionalidade no inconsciente assim como não existe irracionalidade num texto sobre duendes e elfos. Consideramos, antes de qualquer coisa, as premissas do inconsciente do sujeito. Estas premissas devem ser tomadas com seriedade, pois somente as levando em conta podemos almejar compreender o valor da obra, neste caso, do que o paciente está dizendo.
A história da obra literária e a história do paciente devem ser compreendidas nessa relação. É também aqui onde surge a distinção entre os dois casos. Enquanto um romance é constituído de uma narrativa coesa e coerente, os relatos dos pacientes são sempre esparsos, fragmentados e muitas vezes contraditórios. A arte tem a característica de dar coerência poética ao seu objeto; a vida quase sempre nos aparece em pedaços inconsistentes. Mas seria um erro considerar que não há consistência no que o paciente nos conta. Há a consistência do inconsciente.
Ao tratarmos do sujeito, é preciso considerar que o inconsciente tem uma lógica própria, diferente da lógica literária. Suspendemos nossa descrença naquilo que o paciente nos conta porque acreditamos que há, ali, uma verdade importante para o inconsciente. Em vez de julgamento, devemos nos engajar numa escuta compreensiva, que busque entender a maneira o inconsciente está se manifestando naquele relato.