Gleison Ericli

Psicólogo | CRP 17/8270

Associação Livre de Ideias

A psiquê humana forma muitas barreiras de defesas durante seu desenvolvimento, muros psíquicos erigidos para nos proteger do sofrimento. 

Tudo começa na nossa infância, quando passamos por experiências dolorosas e aprendemos que algumas coisas nos causam sofrimento excessivo. Para não sofrermos, reprimimos – isto é, enviamos o pensamento aflitivo para o inconsciente. “Esquecemos”. 

Uma maneira de pular essas barreiras é através da associação livre de ideias. Como o próprio nome diz, é o ato de você deixar os pensamentos fluirem livremente pela sua consciência, exprimindo tudo o que vier à sua mente, sem tentar se segurar em um pensamento específico. 

Você pensa no seu cachorro, isso te faz lembrar de outro cachorro que você teve na sua infância, que te lembra do seu pai, pois ele te deu o cachorro, então você lembra de como seu pai brigava com sua mãe e como você sentia angústia nesses momentos. Assim em diante. 

A associação livre é importante porque nossas barreiras, nossas defesas inconscientes, não são completas. Quando falamos sem associar livremente, trazemos uma narrativa aparentemente bem construída, acabada, mas que não é de fato. Podemos pensar numa casa em que tapetes, quadros e e outros objetos tampam a visão de rachaduras, goteiras e outros defeitos, que continuam ali e que podem se fazer vistos a qualquer momento.

Essa é uma das premissas do nosso inconsciente: o que foi reprimido sempre retorna. Reprimimos para nos proteger, mas esse conteúdo não desaparece. Volta de diversas formas: atos falhos (quando trocamos uma palavra por outra; por exemplo: “eu sou um idiota” em vez de “eu sou um poliglota”), sintomas – como ansiedade, depressão, obsessões, etc. – ou comportamentos que não gostamos, mas que não conseguimos parar de realizar (todo mundo conhece – ou é, ou já foi – aquela pessoa que não consegue dizer “não”, que está sempre querendo agradar os outros).

A analogia de Freud é essa: o inconsciente é como um balão cheio que precisa deixar um pouco de ar escapar de vez em quando para não explodir. 

É quando o reprimido volta de maneira pungente que as pessoas costumam buscar a clínica. 

A associação livre de ideias permite que o recalcado apareça sem causar sofrimento. Por ser algo que não foi colocado numa narrativa racional, o inconsciente pode aparecer sem oferecer muita resistência: atos falhos, fantasias das quais nos envergonhamos, pensamentos intrusivos – tudo isso é escoamento inconsciente.

Na clínica, isso é essencial, pois possibilita o conhecimento dos pensamentos inconscientes, e é com eles que trabalhamos. Na psicanálise, o trabalho mais importante é fazer chegar à consciência os pensamentos recalcados. A associação livre é o fundamento desse processo. 

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Não é só na clínica que a associação livre tem seu valor. Freud chegou até ela fazendo um exercício sugerido por Ludwig Börne no seu ensaio “A arte de se tornar um escritor original em três dias”, em que o escritor sugere que o leitor pegue uma folha de papel e escreva o que lhe vier à mente. Freud fez o exercício. Ele tinha quatorze anos, mas já então percebeu que havia uma lógica ali, havia uma coerência no que surgia, mesmo que não tão aparente. Ele ainda não sabia, mas isso se tornaria a regra fundamental da teoria que ele criaria mais de trinta anos depois. 

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A mente do ser humano é brilhante – mas muitas vezes isso é escondido por medo do sofrimento. Deixamos de ser aquilo que podemos ser – alguns diriam o nosso “melhor” – porque temos medo de sofrer, porque barreiras foram erigidas para impedir o sofrimento e acabaram, colateralmente, inibindo nosso potencial. 

Associar livremente é o começo de uma jornada a nós mesmos para chegar àquilo que é mais autenticamente nosso e que foi colocado para baixo do tapete, mas que está lá e continua nos convocando.

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