Gleison Ericli

Psicólogo | CRP 17/8270

L’avenir – o futuro

É um fato tão conhecido quanto o assassinato de Júlio César ou a derrota de Napoleão em Water Loo que o ser humano é uma criatura que se preocupa bastante com o futuro. Em comparação com outros animais – o gato que boceja ante qualquer aflição alheia, o macaco que está muito ocupado comendo os piolhos que cata da cabeça do seu filho – temos uma forte inclinação para preocuparmo-nos com o futuro, tentar espiar pela fresta dessa porta através da qual só há uma grande escuridão, que nada nos permite ver, mas onde somos vítimas de todo tipo de imagens alucinantes, que nos perturbam e nos afligem.

Essa preocupação com l’avenir muitas vezes é excessiva. Hemingway certa vez comentou um pensamento já muitas vezes proferido, mas o qua frequentemente se faz necessário relembrar, que é: se nos preocupamos com alguma coisa, e podemos resolvê-la, então devemos agir; se não há nada a ser feito, então devemos deixar de nos preocupar, pois isso de nada nos serve. É uma lógica simples e, no entanto, eficiente: por que nos atormentar com coisas sobre as quais não temos poder, ruínas e desgraças que não aconteceram, nem parecem prováveis de se dar imediatamente, mas que nossa mente ansiosa faz questão de trazê-las até nós? Um pensador grego proferiu uma frase famosa certo dia à noite quando alguém tentou falar sobre trabalho com ele: “os negócios ficam para amanhã”. Deixar-se abalar tão facilmente pelo futuro é como o homem que quer perturbar seu sono pensando nas dificuldades do amanhã; ganha-se apenas uma noite mal dormida. Uma vida mal vivida.

Uma outra maneira de olhar mostra-nos que não é tão simples quanto Hemingway fez parecer. O ser humano tem necessidade de pensar no futuro. Sempre se preocupou com isso. Parte desse hábito pode ser atribuída à sua própria evolução. Em um ambiente ancestral repleto de coisas perigosas –  feras predatórias, frutas venenosas, escassez insidiosa – o ser humano desenvolveu um sistema ansioso, algo que era totalmente justificado pelo ambiente e que garantiu a sobrevivência da espécie. Vencemos pelo medo – e nossa vitória nos trouxe até o ponto onde a preocupação com perigos iminentes raramente é justificada. Mas nossa evolução não se apagou, e  continuamos a afirmar que o ser humano é uma criatura excessivamente ansiosa. Sempre irá encontrar algo com o que se preocupar, e o futuro é o que mais se destaca.

Mas isso não é tudo.

Além de seres ansiosos, somos criaturas profundamente (in)conscientes. Nossa ansiedade com o futuro, como muitas de nossas ações, não é sempre tão simples. Pode ser mais do que uma preocupação inadequada, e simplesmente empurrar para o lado e seguir, como sugere Hemingway, pode estar nos afastando de algo importante sobre nós. Sem dúvida, é necessário fazê-lo muitas vezes vivermos nossa vida. Mas devemos considerar que olhar para o avenir pode nos levar para lugares que não esperávamos – um espaço diferente da simples perturbação momentânea. 

Quando encaramos essa perturbação, há uma grande chance de descobrirmos alguma coisa sobre nós: sobre nossos medos, nossos desejos, nosso próprio passado marcado por cicatrizes. Se buscarmos nas nossas profundezas – como alguém que escava em busca de um baú, sem saber o que encontrará dentro dele – com frequência iremos dar de cara com alguma coisa – alguma coisa sobre nós. Aquela preocupação se tornará mais clara e, quem sabe, nos fortaleceremos contra ela. 

No seu ensaio sobre o futuro, Montaigne nos mostra como é vã essa preocupação com coisas que não aconteceram e que não sabemos se vão acontecer. Aquele que está satisfeito com o presente não perde tempo se preocupando com o futuro, ele comenta. De fato, muitos buscam no futuro a satisfação que lhes falta no agora. Outros – espíritos mais temerosos – voltam-se com frequência para o futuro, vendo nele a perda de seu bem-estar atual. Preocupações que entravam nosso viver diário, que nos impedem de sermos seres do presente, são danosas; afastá-las é um meio que deve ser buscado quase sempre. Mas às vezes, em vez de simplesmente afastá-las, devemos nos perguntar por que aquilo se repete, por que aquilo nos aflige tanto.

Montaigne também diz que filosofia é aprender a morrer, e que devemos abraçar a morte, sempre nos aproximarmos dela quando houver a oportunidade, nunca evitá-la, para não sermos pegos de surpresa por essa experiência humana universal. Preocupar-se com o futuro não é algo semelhante? Se apenas o rechaçamos, estamos virando o rosto desse encontro humano inevitável. A previdência exige que nós nos preparemos bem, que olhemos para o futuro e antecipemos os possíveis revezes da vida. Mais do que isso, olhar para o futuro é olhar para nós mesmos. 

Montaigne não estava errado. Em geral, os homens perturbam-se excessivamente com o que está por vir, olvidando do presente: 

exemple remarquable de la folle curiosité de notre nature, qui passe son temps à se préoccuper des choses futures, comme si elle n’avait pas assez à faire avec les présentes! (exemplo notável da louca curiosidade de nossa natureza, que passa seu tempo a se preocupar com as coisas futuras, como se ela não tivesse muito o que fazer com as coisas presentes!)

Se encaramos o futuro, devemos fazê-lo não como o homem preocupado, temeroso de tudo e de todos, sempre voltando o rosto para verificar se é perseguido ou se algo o ameaça. É preciso lançar-lhe um olhar sério e prudente, olhar perscrutador, como um arquiteto que vistoria o andamento de uma obra, procurando possíveis falhas e se preparando para as novas etapas, mas que depois de feito, esquece-se e retorna aos seus outros afazeres. Não devemos habitar o futuro.

No fim, nossa melhor atitude é a de viver no presente, buscando um melhor futuro, mas não esquecendo-se de que ele é incerto, de que a única certeza é o agora. É nele que a vida é vivida, e aquele que tenta espreitar o futuro, buscando adivinhá-lo ou apreciar prazeres irreais, não pode senão ter um sucesso pálido. Quem busca viver no futuro alcança sempre a morte do presente. 

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