Gleison Ericli

Psicólogo | CRP 17/8270

Morte em Veneza e os Impulsos do Inconsciente

Thomas Mann foi um dos maiores escritores do século passado, que se distinguiu dos outros grandes romancistas de sua época pela estrutura de seu trabalho. Para a surpresa inicial de muitos daquela época, seus livros mantinham a forma clássica, tradicional, como os romances do século XIX. Numa época de grandes inovações formais, obras assim não deveriam se destacar; mas Mann tinha aspirações mais grandiosas do que produzir romances convencionais. Por trás da sua estrutura clássica, havia o conteúdo da decadência do homem moderno e da sua sociedade. A ironia dessa relação foi o que garantiu o nome do escritor no cânone literário. 

Mann sabia que não mais se podia confiar numa visão simples da realidade. Estava consciente das insidiosidades da mente e do inconsciente. Grande parte do seu trabalho consiste em mostrar a decadência que o homem insiste em ignorar e, desse modo, apenas a acelera. A sua forma irônica é a mais adequada para esse assunto. Isso fica claro em Morte em Veneza.

O protagonista Aschenbach é um escritor que mantém ideias clássicas sobre si mesmo e o mundo. Ele não aceita qualquer perturbação dessa visão das coisas. No entanto, ele é incessantemente perturbado por investidas do inconsciente, às quais resiste e repele. Quando a visão Tadzio, um belo rapaz, gera em Aschenbach desejos sensuais, ele logo se defende dominando esses sentimentos e os colocando em seu devido lugar. Para resistir às pressões do inconsciente e do mundo, que insistem em destoar de sua visão das coisas, Aschenbach tenta moldar a realidade a uma forma clássica. Não aceita seus desejos sexuais por Tadzio, então o transforma em um ser clássico, dotado de qualidades míticas, um belo semideus. Instaura-se um conflito entre suas concepções conscientes e os impulsos do seu inconsciente.

Mas essa distorção do real – e nada é mais real para o sujeito do que o seu inconsciente – só vai até certo ponto. Aschenbach defende-se como pode, mas a pressão constante daquilo que ele tenta reprimir é demais para ele. Em sua rigidez conceitual, incapaz de aceitar aquilo que foge da sua visão, Aschenbach quebra. Até a própria morte é colocada em termos mais aceitáveis – Thanatos. Mas ela chega mesmo assim. 

Essa obra de Mann é elucidativa da situação do homem moderno que não consegue mais manter uma  ideia de completa dignidade sobre si mesmo. Em um mundo onde existe a psicanálise, não se pode mais supor-se – pelo menos não impunemente – “respeitável”. Mas isso não impede que tentemos. Todos nós temos uma visão do mundo e de nós mesmos, que é mais um fruto de nossas próprias ideias do que da realidade em si. Alguns conseguem atravessar a vida mantendo rígida suas visões e conceitos. Mas o problema é que isso pode se quebrar a qualquer momento, como ocorreu a Aschenbach em sua incapacidade de aceitar – ou a menos contemporizar com – a realidade que insistia em ser reconhecida. 

Como uma pedra que sempre se acreditou indestrutível e quebra-se em uma colisão, também nossa visão de mundo pode ser destroçada. Isso acontece o tempo todo. Nossas crenças são contrapostas com a realidade e nos vemos muitas vezes em erro. Mas o problema é quando o inconsciente é incessantemente reprimido, quando somos rígidos demais e usamos todas as nossas forças para esconder aquilo que insiste em se mostrar. Na psicanálise, sabemos o que acontece: sintomas, que são relações de compromissos como resolução do conflito entre o conteúdo recalcado e as resistências que impedem que ele cheguem à consciência. 

A rigidez excessiva exige uma atitude quase constante de preparação, de defesa, como um soldado que está em guarda esperando um invasor a qualquer momento. Isso cobra muito, pois luta-se com inimigos que estão sempre ameaçando nossos conceitos – isto é, a própria realidade, sempre à nossa porta, esperando uma chance para invadir a nossa consciência. Aschenbach passou por isso com Tadzio, mas, incapaz de aceitar seus desejos e impulsos – tudo que foge à sua visão – ele tenta encaixá-lo nos seus próprios conceitos. Mas não conseguimos colocar um sofá numa caixa de livro. É preciso rasgar, multilar a natureza da coisa e transformá-la em outra. Isso não é o suficiente para o nosso inconsciente. O novo objeto – porque, de fato, é um novo – não é o mesmo no qual o inconsciente investiu. Essa espécie de sublimação tem seu valor, mas é a realidade do inconsciente que decide quando é aceitável ou não.  

Aschenbach tentou ignorar o inconsciente, mas seu sucesso foi débil. Criou todo um mundo simbólico, habilmente construído, mas, porque este destoava da realidade do seu inconsciente, ele precisou defendê-lo incessantemente. Ele não foi capaz de suportar – então quebrou.

A história de Aschenbach é sobre como a rigidez da nossa consciência e dos nosso conceitos são perigosas. Defender-se do inconsciente tão ferrenhamente é como alguém que, ao sentir uma dor em sua barriga, apunhala a si mesmo. Isso não quer dizer que devemos ceder a todas as investidas do inconscientes, mas se é algo que se repete com tanta frequência, o mínimo que podemos fazer é escutar. Talvez ele traga apenas uma oferta de paz, com termos satisfatórios para ambos os lados. Talvez mudemos; talvez seja necessário se dobrar. Mas dobrar é melhor do que quebrar. E, no fim, talvez a nossa nova forma não nos desagrade. Precisamos experimentar para saber. 

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