Gleison Ericli

Psicólogo | CRP 17/8270

Não há nada pior que o tédio

Meio-dia. Ainda deitado na cama, a cabeça movendo-se sobre o travesseiro, agora para um lado, agora para o outro, com uma débil esperança de atingir uma posição confortável, por fim desistindo. Inquieto, mas incapaz de agir; olhando para tudo, mas sem conseguir focar; à beira do desespero, mas sem forças para se desesperar. Ou, à espera do ônibus, olhos postos no chão, movendo repetitivamente o pé direito: subindo e descendo, subindo e descendo, tocando o chão com um ruído oco. Um mínimo barulho de um automóvel faz seu rosto voltar-se, apenas para se frustrar novamente. Observa pela décima vez as pessoas ao seu redor. Finalmente seus olhos retornam ao chão, como se naquela superfície cinza claro estivesse representada a sua vida. E há por ela uma sensação de desgosto – uma repugnância pela vida como ela se apresenta em seu infindável aborrecimento que engole toda a nossa alma em um enorme turbilhão de monotonia. Até que o tédio passa. 

Da lassidão paralisante à indolência aborrecida, da espera impaciente às conversas desinteressantes e à solidão inquieta – o que quer que se apresente como tedioso para o espírito humano classifica-se entre as piores sensações que podem ser sentidas. Porque não há nada pior do que o tédio.

O tédio não é, deve ser dito, equivalente ao estado de ociosidade; a disposição externa em que nos encontramos pouco diz sobre o nosso estado interno. Um homem pode estar completamente inerte, estirado sobre sua cama como um pássaro baleado ao chão, e estar percorrendo, pela força de sua mente, jornadas mais longas do que o caminho até a China e mais alegres do que A Truta de Schubert. Também não sentimos, às vezes, uma espécie de deleite lânguido e voluptuoso, uma das sensações mais deliciosas que o ser humano é capaz de sentir, na indolência alegre? Não foram, além disso, algumas das maiores realizações intelectuais da humanidade descobertas em um estado de aparente tédio? Suporia-se que Aristóteles desenvolvia a sua enteléquia enquanto coçava o seu pé direito com um desinteresse enfadonho? Que Beethoven meditava sobre a melodia do primeiro movimento de sua sétima sinfonia enquanto era atacado por pensamentos medíocres – que sempre invadem a nossa mente nos momentos de tédio – como sobre o que iria jantar? Que, enquanto ocupava os seus poderes mentais com a criação do seu dicionário, Johnson fazia movimentos estranhos com suas pernas,  a exemplo de como as pessoas entediadas costumam agir? Bem, este último exemplo está sujeito a discussão.1

Com efeito, algumas daquelas obras de valor questionável devem ter sido produzidas enquanto seus autores estavam profundamente aborrecidos. Sem dúvida, Dan Brown se encontrava mergulhado nesse estado enquanto escrevia os seus livros; porque esse tipo de divagação desconexa e sem sentido que se encontra em sua obra é um sinal característico da vagueza de consciência que vemos nos entediados. E ninguém com sua inteligência fria e lúcida escreveria tanta estupidez de propósito.

O tédio é um estado de aborrecimento mental e afetivo por tudo que nos cerca e por nós mesmos; é quando a linha que liga a nossa consciência à vida tem a grossura de um fio; é quando nos encontramos plenos de desgosto, porque, ainda que vivos, nossa condição mais lembra à morte. É insidioso como um veneno que nos entra pelo ouvido e se espalha por todo nosso interior, paralisando nossa alma, fazendo desabar o nosso ânimo e jogando, muitas vezes, um peso sobre todo o nosso corpo. É volátil e flexível; aparece às vezes onde menos se esperaria e nos evita quando estamos certos de sua presença. Atinge invariavelmente a todos os homens e é paradoxal por natureza: pois quando estamos entediados, queremos fugir desse estado, mas é ele a própria razão para essa fuga se tornar uma tarefa tão árdua e não raramente impossível. Sob o seu suplício atordoante, entre suas garras frouxas mas firmes, pretendemos nos desesperar, mas nem mesmo isso essa ave de rapina nos permite. Em suma, não há – não pode haver – prazer na vida enquanto estamos entediados.

Mas em que se diferencia o tédio da dor? Por que não seria esta pior do que aquele? A dor, é verdade, nos faz sofrer de maneira mais intensa do que o tédio. Ela nos absorve completamente; nosso intelecto é reduzido e todos os nossos sentidos voltam-se inteiramente para ela. Mas é justamente pelo sofrimento causado pelo tédio ser mais surdo e consciente que ele supera a dor em seu suplício. Não são só nossos sentidos que gritam para nós, embora eles gritem com voz surda, mas todo o nosso ser, em sua completa racionalidade, trabalha para aumentar o nosso flagelo. Estamos conscientes do nosso estado execrável, e nossa razão nos faz perceber que há alguma coisa de torpe em estarmos assim; que isso significa algo sobre a nossa existência neste mundo, e a vida nos aparece aos olhos como desprovida de substância. A dor é um estado existencialmente insignificante, enquanto o tédio, ao mesmo tempo que reduz a nossa ligação com a vida, nos faz sentir isso. A dor nos torna mais vivos; o tédio, mais mortos. Além disso, a dor não tem, a priori, consequências; você pode senti-la repetidas vezes, mas, uma vez passada, não pensa mais nela e continua vivendo normalmente. Mas os efeitos do tédio podem ser duradouros, vastos e profundos. 

Uma afirmação com a qual todo observador perspicaz prontamente concordará é a de que o tédio pode aviltar o ser humano, em suas várias dimensões, com grande profundidade. Um tédio ocasional não oferece perigo e é, de todo modo, inevitável; mas, se frequente, esse estado torpe engendra hábitos repugnantes, altera nosso espírito de maneira indesejável e até mesmo nosso caráter e nossa personalidade são passivos de seu efeito, para nosso grande mal. A mente perde o seu caráter ativo, torna-se mole e indolente, incapaz de manter-se atenta a algo por muito tempo e está sempre pronta a direcionar sua atenção para outra coisa, ao menor estímulo, somente para em breve também deixá-la. Mais flutua sobre os pensamentos do que caminha por eles. A curiosidade, essa chama da vida, desvanece sem que percebamos, e logo poucas coisas nos interessam realmente; há somente caprichos de atenção passageiros. Pior, como na vida tediosa nada acontece, o que resta da curiosidade torna-se a do tipo mais abjeto. Sem verdadeiros interesses, ela volta-se para as mesquinharias e as nonadas da vida corriqueira, principalmente para os acontecimentos nas vidas dos outros. E assim, é digno de meditação saber se a vizinha estava ou não namorando com um rapaz ontem à noite ou para onde o outro vizinho viajou. Uma personalidade ardente se arrefece e um caráter ativo, disposto a tudo enfrentar, torna-se temeroso de agir; aquele que estava pronto para lutar contra todas as injustiças, aceita-as pela conveniência, e sua moralidade continua a rebaixar-se gradualmente. 

Mas nem todas as pessoas se submetem a esse pesado jugo; há sempre alguns espíritos que não nasceram para serem dobrados, que precisam sentir o ardor da vida, seja nas grandes ações ou nos grandes sentimentos. E, em alguns casos, são levadas pelo desespero a empregarem todos os meios para se libertarem, mesmo que momentaneamente, dessas pesadas correntes que aprisionam sua alma. E que exemplo mais completo e mais elucidativo dos danos causados por uma vida de tédio do que o de Madame Bovary? Pobre mulher, a sua vida foi, em maior parte, uma alternância entre o tédio da vida na província e as tentativas desesperadas de fugir dele. Por isso foi levada a atos de desespero, tanto mentais como ações reais, o que eventualmente a perdeu. Sem dúvida, tivesse ela nascido em Paris, nada disso teria ocorrido.

Deve ser admitido, é verdade, que alguns dos maiores feitos da humanidade devem ter tido, ao menos em parte, o tédio como motivador. Sem dúvida, se o tédio não fosse desprezado por eles, muitos desses grandes homens não teriam levado a vida ativa e de grandes ações que hoje nós conhecemos ou produzido obras com que ainda hoje regozijamos. Quem pode afirmar com certeza que não foi para fugir do tédio que César iniciou uma guerra civil ou que Augusto buscou obter o poder isolado do Império Romano? Que Schubert compôs tanto em tão pouco tempo ou que Virgílio escreveu seu Enéias? Se esse for o caso, foi para evitar o tédio que agiram assim. Porque não há nada pior do que o tédio.

1 – Samuel Johnson, o eminente crítico literário, era famoso por seus hábitos singulares. Em sua biografia, Boswell nos conta que certo dia o Dr. Johnson estava jantando na casa de um amigo, e, enquanto o resto da companhia conversava à mesa, ele se afastou e foi para a janela, onde começou a fazer exercícios estranhos com as suas pernas, indiferente ao efeito que isso teve sobre a atenção do resto do grupo.

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