Gleison Ericli

Psicólogo | CRP 17/8270

O Problema da Especialização

Em seu livro, A Revolução das Massas, o filósofo Ortega y Gasset fala sobre um problema moderno: a questão da especialização. Ele afirma que no seu século, o desenvolvimento da ciência tem feito surgir muitos especialistas: homens que, ignorantes em todo resto, sabem muito sobre uma única coisa. Por si só, não parece haver um problema; mas as consequências, acredita o filósofo, são diversas.  

Com a especialização, cria-se um cenário curioso. Muitas pessoas não demonstram qualquer inclinação para o conhecer e o filosofar, mas elas se tornam especialistas em uma única coisa e, magicamente, aprenderam sobre tudo! Isto é, elas acreditam saber de tudo. A crítica de Ortega y Gasset é essa: existem muitos especialistas que, porque sabem muito de algo, acreditam saber muito sobre todas as coisas. Como consequência, tornam-se autoridades infalíveis de assuntos gerais. Como consequência, não existem mais idiotas e ignorantes. Todo mundo é conhecedor; vivemos numa sociedade repleta de Sócrates, Platões e Aristóteles. Mas que belo espetáculo é a contemporaneidade! 

“Temos de dizer que é um sábio-ignorante, coisa extremamente grave, pois significa que um senhor que se comporta em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a arrogância de quem em seu campo especial é um sábio”. 

O professor universitário é um caso elucidativo. Autoridade dentro da sala de aula, especialista (espera-se) no seu campo de conhecimento, acredita ter a mesma autoridade e sabedoria em todos os aspectos da vida. Espera deferência assim que entra num recinto e, quando encontra apenas desinteresse indiferente, murcha sensivelmente, intimamente vituperando os presentes.

Ainda mais no nosso século do que no de Ortega y Gasset, os intelectuais perderam sua credibilidade, ou pelo menos sua distinção. Foi-se o tempo de Rousseau e Voltaire, de Locke e Hume, de Kant e Hegel. Sábios que eram escutados pela sociedade, e sua autoridade, embora com frequência questionada, raramente era desprezada. Enquanto isso, o cientista-especialista é a autoridade na sua área. E, claro, por que não deveria ser? Ele estudou para isso. O problema é quando ele – e muitas vezes os outros – esquecem que sua autoridade deve ser restrita a um campo do conhecimento e que o estudo de uma disciplina não o torna conhecedor de todas – não o torna conhecedor do mundo!

Ortega y Gasset não viu o pior. Hoje em, dia, com as redes sociais e os influencers, os próprios cientistas perderam parte do seu reconhecimento. Agora, temos pessoas com menos livros lidos na vida do que dedos nas mãos conduzindo a sociedade. Está aí o problema do homem-massa, que o filósofo lamentava em sua época, dez vezes pior!

Outra característica do nosso tempo é o que pode ser chamado de imperativo do sucesso. Consequência do estado do capitalismo em que vivemos e também da infestação das redes sociais: existe uma necessidade de se ter sucesso. Não importa quem você seja, precisa ser bem-sucedido. Riqueza, status, influência – tudo isso que a massa sempre quis, mas nunca admitiu para si mesma pela impossibilidade de alcançar. Mas agora a pressão para se obter é maior e a realidade-ilusão da obtenção está mais próxima. Com esse mesmo imperativo, vem a autorização para se ter uma opinião sobre tudo. Alguém de sucesso, de valor, certamente é capaz de pensar por si mesmo. Sim, não importa se pensa bem ou mal, ou mesmo se pensa, mas deve opinar sobre todos os assuntos. Afinal, com as redes sociais, aprende-se tudo; vídeos de vinte segundos nos dão conhecimento que outros levaram anos amealhando (“tolos”). Por que desperdiçar cinco anos da sua vida em um curso universitário, e depois mais seis até finalizar seu doutorado, se pode aprender enquanto rola os Reels do Instagram? Nonsense. 

Podemos ir além e investigar o papel da insegurança na psicologia do fenômeno. Todo mundo tem as suas inseguranças, e o sujeito contemporâneo mais do que os outros porque, ao mesmo tempo em que não se crê o suficiente, acredita que deveria ser. É diferente de épocas antigas em que a estratificação social rígida dizia claramente para a maior parte da população que ela era inferior, mas ao mesmo tempo a autorizava a ser. Não a pressionava para subir na escala social. Hoje, não é permitido. O imperativo do sucesso opera em todas as esferas da vida. Assim, o sujeito contemporâneo é alguém marcado por profundas inseguranças em relação à sua posição no mundo. O paradoxo é que ele não aceita isso e tenta convencer-se dos contrário. Afinal, ninguém gosta de se sentir mal consigo mesmo. Ele busca, de todas as maneiras, superar esse sentimento de inferioridade. E hoje em dia não é difícil iludir-se do sucesso dessa empresa. Precisamos apenas construir uma narrativa organizada (nem precisa ser muito organizada) que nos permita acreditar no contrário. Riqueza é uma dessas coisas que mais facilmente escondem a insegurança: “eu tenho dinheiro, é isso que importa: eu importo”. Claro que o sentimento de inferioridade não é assim facilmente extinto. Apenas varrido para baixo do tapete. Mas é isso que a maior parte de nós quer: varrer as coisas para baixo do tapete. 

Nos dias atuais, é mais fácil enganar a si mesmo. Uma especialização facilmente adquirida, então podemos dizer a nós mesmos que temos aquilo que basta, que nós bastamos. Fácil e simples assim. Para sustentar essa posição, precisamos agir de acordo. Segue a arrogância, o esnobismo, a necessidade de ter opinião. O especialista do século de Ortega y Gasset deu lugar ao homem-massa mais cru: qualquer um – com pouquíssimo ou nenhum esforço – pode se considerar “alguém que sabe”. 

Aqueles que realmente sabem compreendem o erro disso. Porque nunca sabemos o bastante. A atitude socrática é a correta: “só sei que nada sei”. É com ela que podemos alcançar qualquer grau de conhecimento verdadeiro. É dela que vem a sabedoria que possibilita caminhar pelo mundo com mais segurança verdadeira. Essa atitude falta aos especialistas. Considerar que o mundo pode ser fatalmente descoberto, que sempre podemos aprender mais – é isso a própria sabedoria. A falta do amor filosófico é um crime para quem busca o conhecimento. Os especialistas não amam o conhecimento: amam apenas a si mesmos. Devemos temê-los, lembrando do aforismo de Goethe: “não há nada mais aterrorizante do que ignorância em ação”. 

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