Às vezes temos dificuldade em pensar de uma maneira diferente sobre algo em que estamos fortemente implicados. Não há melhor exemplo do que quando nos apaixonamos. Acontece o que o escritor Stendhal chamou de “cristalização”: adornamos todos os traços da pessoa amada com cristais, e ela aparece a nós como perfeita. A verdade, que somos forçados a reconhecer, é que simplesmente não estamos em posição de um julgamento imparcial.
Isso acontece em outras situações nas quais temos um contato muito próximo com o objeto de avaliação. Com frequência, se dá em empregos. Estamos tão implicados naquilo que fazemos que esquecemos que outras pessoas não estão e podem ver as coisas de maneira diferente da nossa. Recentemente, isso me aconteceu. Sempre tive para mim – em razão do meu tirocínio – a suposição de que todo mundo reconhecia quão importante um psicólogo poderia ser na vida de alguém. Muitos, de fato, mantêm ideia semelhante.
Outros têm opiniões diferentes. Uma opinião corrente entre algumas pessoas – das quais grande parte, deve ser admitido, não possui proximidade com a psicologia – é de que buscam a psicoterapia apenas aquelas pessoas que são fracas: fracas por precisarem de tratamento e fracas por não conseguirem resolver seus problemas sozinhas. Uma coincidência que chama atenção é que não raramente estas mesmas pessoas são aquelas que não conseguem ter uma conversa sobre sentimentos com o filho ou que ofendem-se com qualquer comentário que possa vagamente remeter a uma insegurança sua, passando a dar o que poderíamos chamar de um “show de drama”.
Para abordar essa questão, podemos iniciar com uma proposição básica: todos nós temos fraquezas, e não é pela existência delas que se define a força. Força pode ser definida não como a inexistência de fraquezas, mas a capacidade de encará-las. Assim a coragem não se define como a ausência de medos, mas é a capacidade de enfrentar seus temores. O forte é aquele que enfrenta as suas fraquezas.
Qualquer pessoa que reconheça suas fraquezas psíquicas – se podemos utilizar esse termo – e busque ajuda as está encarando. Isso é pelo menos um indício de força. De maneira contrária, aquelas pessoas que fazem de tudo para ignorar suas vulnerabilidades, vão ao extremo para evitar o mínimo sentimento de insegurança e ao se deparar com alguma angústia pessoal, como é inevitável, a reprime – bem, não me parece haver qualquer traço de força nisso. Encarar seus medos, suas angústias, tornar-se vulnerável é o maior sinal de força que alguém pode dar. É como o guerreiro que, frente ao exército inimigo, retira seu capacete e marcha antes dos seus companheiros.
O outro ponto frequentemente mencionado é a busca de ajuda – isto é, argumentam que alguém forte deveria ser capaz de resolver seus problemas sozinho. Antes de tudo, pode ser dito que, não raro, essa necessidade de resolver sempre seus problemas sem ajuda é algo que leva ao desenvolvimento de vulnerabilidades psíquicas ou é a própria consequência delas. indivíduos fanaticamente apegados ao “sou só eu” demonstram um complexo psicológico facilmente identificável, e o orgulho que vem com a ideia de ser você seu próprio pilar, embora seja até certo ponto admirável, se tomada com obstinação, torna-se, além de impraticável, uma daquelas obsessões que apontam para um caráter incapaz de se relacionar de maneira saudável consigo mesmo e com o outro. No mesmo viés que utilizamos até agora, isso não pode senão ser chamado de fraqueza (ou pelo menos é uma fraqueza potencial, esperando a situação adequada para se manifestar).
Mas por que deveríamos resolver tudo sozinhos? O homem mais forte do mundo não consegue levantar uma pedra de 600 quilos sem ajuda de pelo menos outra pessoa (e pelo menos tão forte quanto ele). Preferivelmente, ele usaria uma máquina. Nem tudo conseguimos resolver nós mesmos, especialmente num mundo em que a especialização tornou-se tão comum e que a ideia do homem do renascimento (homo universalis) precisa ser revista. Se precisamos de um médico para curar nossas moléstias físicas, por que não buscaríamos um psicoterapeuta para nossas questões psicológicas?
É mais difícil reconhecer porque, diferente dos sintomas físicos, nossos sintomas psicológicos não têm uma aparência sensorial desagradável nem mostram-se sempre como dor pungente que paralisa (embora às vezes aconteça). É de uma ordem diferente, uma ordem a qual o ser humano não se habituou a identificar com facilidade. É preciso algum esforço e estudo para reconhecer sintomas psicológicos como isso mesmo: sintomas. Aqueles que não o têm, apenas acham que é uma consequência da vida e seguem em frente – ou para trás.
Qualquer pessoa que passou pelo processo de psicoterapia conhece a verdade: é preciso muita força e coragem para suportar o processo, pois ele vai ser doloroso, e embora o profissional esteja ali e seja imprescindível, no fim, quem faz o trabalho é o sujeito. Encarar as próprias dores, lutar contra as próprias fraquezas e sair vitorioso (mesmo que em parte) – isso requer muita força.
Fraqueza e força são contingenciais. Muitas pessoas são fortes em alguns aspectos e fracas em outros; muitas são fortes em uma situação e completamente desamparadas em outras. As pessoas que dizem não precisam de psicoterapia, ou porque não têm fraquezas ou porque conseguem resolver seus problemas sozinhos, lembram o vidro: duro na superfície, mas uma leve queda pode estilhaçá-lo em inúmeros pedaços. Psicoterapia é justamente para as pessoas que reconhecem que o mundo é tão grande e diverso que pode transformar nossa força em uma fraqueza rapidamente, nossa segurança em insegurança, especialmente se insistirmos em ser vidros.